
A transição para sistemas de produção de café mais resilientes tornou-se uma prioridade para a sustentabilidade da cadeia global. No Brasil, eventos climáticos extremos — como períodos prolongados de seca, chuvas intensas e concentradas, variações de temperatura e ocorrência de granizo — estão entre os principais desafios enfrentados por produtores de café. Nesse contexto, a cafeicultura regenerativa vem sendo reconhecida como uma abordagem com potencial para fortalecer a resiliência dos sistemas produtivos e contribuir para o enfrentamento das mudanças do clima, ao mesmo tempo em que promove a recuperação e a conservação dos recursos naturais.
Na cafeicultura brasileira, um novo estudo traz evidências sobre como diferentes combinações de práticas regenerativas podem contribuir para esse processo. Realizado pela Plataforma Global do Café (GCP) em parceria com a Fundação Solidaridad, JDE Peet’s, Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater–MG), a publicação Cafeicultura Regenerativa: Uma análise econômica, agronômica e ambiental avaliou sete propriedades produtoras de café arábica nas regiões do Sul de Minas e Cerrado Mineiro. As propriedades apresentam diferentes realidades de produção, incluindo agricultura familiar e empresarial, áreas planas e montanhosas, sistemas mecanizados e não mecanizados, além de propriedades irrigadas e de sequeiro.
Principais evidências
- Competitividade econômica: Todas as propriedades apresentaram custos operacionais inferiores à média de referência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2025) para Minas Gerais, de R$ 768,80 por saca de 60 kg. E a produtividade média foi de 45 sacas de 60 kg por hectare, acima da média nacional estabelecida pela Conab;
- Resiliência agronômica: Os solos superficiais apresentaram, de modo geral, condições favoráveis de fertilidade. Entretanto, foram identificadas limitações entre 20 e 80 centímetros de profundidade que restringem o desenvolvimento das raízes. O fortalecimento da saúde do solo em profundidade aparece, portanto, como uma das principais oportunidades para ampliar a resiliência climática;
- Desempenho ambiental: As propriedades analisadas removeram significativamente mais carbono do que emitiram, com um balanço líquido médio de -77,46 tCO₂e/ha. As emissões médias foram de 0,95 tCO₂e por tonelada de café produzido.
O estudo foi liderado pela Plataforma Global do Café como desdobramento do trabalho coletivo que resultou no guia “7 elementos para a implementação da cafeicultura regenerativa”. A publicação apresenta uma estrutura técnica para orientar a produção regenerativa de café no Brasil, promovendo um entendimento comum sobre resultados esperados, práticas e indicadores. Organizada em torno de sete elementos centrais, a estrutura foi construída com base em evidências científicas e a partir de uma visão compartilhada entre diferentes atores da cadeia, incluindo representantes dos setores público e privado, organizações da sociedade civil, cooperativas e instituições acadêmicas.

O Gerente de Programas da Fundação Solidaridad, Gabriel Dedini, reforça que o estudo contribui para aproximar os compromissos de sustentabilidade das realidades do campo, ao levantar dados capazes de orientar práticas e investimentos que conciliem a saúde do solo, o uso responsável dos recursos naturais e a viabilidade econômica da produção.
“O avanço dessa agenda passa por colocar os produtores no centro das decisões, ampliar o acesso à assistência técnica e distribuir responsabilidades e custos da transição ao longo da cadeia. Para isso, são necessárias parcerias transparentes, monitoramento dos resultados e investimentos de longo prazo que contribuam para transformar compromissos socioambientais em resultados concretos no campo”, destaca ele, que é um dos colaboradores da pesquisa.
“Este estudo confirma que o caminho para o cultivo regenerativo de café deve ser específico para cada contexto – não existe um único caminho a seguir”, afirma o Diretor de Programas da GCP para o Brasil, Pedro Ronca. “O que constatamos nas sete fazendas é que diferentes combinações de práticas regenerativas podem resultar em sistemas de produção competitivos, desde que sejam adaptadas às condições de cada propriedade, implementadas de forma consistente e apoiadas por orientação técnica”, complementa.
Para a Diretora Executiva da GCP, Annette Pensel, gerar evidências de forma coletiva e pré-competitiva é fundamental para criar uma base sólida para investimentos em toda a cadeia. “Dados obtidos a partir de propriedades e condições reais ajudam a transformar compromissos em investimentos mais direcionados, capazes de apoiar os produtores no processo de transição”, ressalta.
Próximos passos
O estudo oferece uma base de informações que pode apoiar produtores e produtoras, serviços de assistência técnica e extensão rural, cooperativas e empresas na elaboração de programas, estratégias, investimentos e mecanismos de incentivo mais adequados às diferentes realidades da cafeicultura. Os dados contribuem, sobretudo, para ampliar o conhecimento sobre diferentes caminhos possíveis para a transição rumo à cafeicultura regenerativa. A GCP e os parceiros ressaltam, contudo, que os resultados são baseados em uma amostra limitada e não devem ser generalizados para toda a cafeicultura brasileira.
*Matéria traduzida e adaptada da versão original publicada no site da Plataforma Global do Café
octubre 1, 2026
septiembre 29, 2026
agosto 13, 2026
junio 16, 2026
julio 16, 2025
junio 30, 2025